Setembro Amarelo (ilustrativo)

A primeira coisa que perpassa nossa mente quando nos deparamos com um ser humano que se suicidou é o seu presumível descontentamento pela vida; a sensação de vazio inexplicável que, inevitavelmente, o transportou para o padecimento melancólico.

Alguns psicanalistas afirmam que o problema advém de uma depressão tão profunda, que chega a perfurar a alma e dissipa qualquer esperança que o sujeito poderia depositar no amanhã. Tudo isso é muito mais pungente do que uma melancolia súbita e uma ‘falta de sentido na vida’.

Contexto filosófico

Santo Agostinho, em ‘Confissões’, afirmou que a vida é um presente de Deus, logo, não devemos nos desfazer dela por conta própria.


Platão defendia o suicídio quando os acontecimentos circundantes são intoleráveis.

Aristóteles, dono do fundamento que afirma que o homem é um animal político por natureza, enxerga o suicídio como uma ofensa ao Estado. Ao se suicidar, o ser humano abstém-se de suas responsabilidades de cidadão e, por conseguinte, enfraquece ao Estado.

Muitos estudiosos asseveram que Jesus Cristo cometeu suicídio como uma forma de redenção, para salvar a humanidade. De forma voluntária, ele abre mão da própria vida, sem lutar por ela.

Suicídio em LGBTs

O Psicólogo Felipe Gonçalves, Psicoterapeuta pessoal e de casais, respondeu algumas perguntas sobre o suicídio entre o público LGBT+, que não está desassociado de questões familiares, a culpa, e religiosidade.

” Atuo como Psicólogo clínico com foco nas questões da sexualidade e da população LGBT, sendo também consultor em diversidades, numa empresa que presta serviços para área educacional e corporativa.  Nos mais variados ambientes, LGBTs ainda enfrentam preconceitos e dificuldades na garantia dos seus direitos humanos básicos. Quando buscam e aderem à psicoterapia, ao longo do processo relatam o desamparo vivido na família, na escola e religião, as inúmeras barreiras no acesso ao mercado de trabalho, enfim, na sociedade como um todo. É quase impossível ser LGBT e não internalizar todas essas mensagens negativas impostas socialmente desde a mais tenra infância. Em meios às lutas, também precisamos elaborar os lutos”.

 “O preconceito contra pessoas LGBTs é algo estrutural em nossa sociedade. A família representa, na maioria das vezes, o primeiro e núcleo de socialização do sujeito. É na família, sejam quais forem os arranjos existentes, que podemos vivenciar experiências de amor, de proteção e cuidado, como também experiências de abandono, desamor e rejeição. A escola também colabora reproduzindo os modelos impostos na sociedade, através da normatividade dos corpos e vivências. A religião também pode contribuir significativamente para a manutenção das crenças de normatividades das identidades de gêneros e/ou orientações afetivo-sexuais. Esses fatores inter-relacionados podem contribuir significativamente desde a ideação suicida ao suicídio”.

Saúde Pública

“As políticas públicas afirmativas para a população LGBT são extremamente importantes para garantia dos direitos e equidade social com os demais grupos. Precisamos convidar as famílias, a escola e a religião para esse debate, possibilitando espaço de escuta, acolhimento e pertencimento. Precisamos rediscutir os modelos de masculinidades tóxicas em nossa sociedade. A vivência dessas masculinidades é um dos fatores que colaboram para o comportamento suicida em homens, pois desde pequenos, são ensinados a não expressarem suas emoções, na famosa crença de “homem não chora”, e portanto, não lida com suas emoções, dificultando a construção de redes de apoio”.