“Eu estava onde muitas meninas trans até tenham sonhado estar mas não tiveram a mesma chance…”Conta atriz triz transexual sobre transição e preconceito

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Danny Barbosa sempre soube que era Danny mas demorou a assumir essa identidade por respeito a sua criação. Criada por duas Marias, mãe Maria Aparecida e avó Maria de Lourdes, mulheres que sempre apoiaram a sexualidade da moça, sabiam exatamente o quão cruel o mundo poderia ser para uma pessoa transexual e foi por isso que somente em 2005 que começou a transição de gênero.

Danny conta que atuava na igreja que frequentava com a avó desde os 6 anos, mas quis correr atrás de uma base teórica e em 2001 começou a estudar teatro.
“Aos 6 anos de idade, na igreja que eu frequentava junto com minha avó, eu já atuava. Então eu considero que, de certa forma, de uma forma muito natural, eu já era artista. Só que aí, eu fui crescendo, comecei a fazer teatro na escola aos 13 anos, e em 2001 foi que eu determinei que eu tinha que procurar um lugar pra estudar, eu precisava de uma base teórica, de uma formação, como artista, porque eu queria ingressar em algum grupo de teatro e eu não poderia chegar simplesmente com a cara e a coragem”.

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E mesmo no meio artístico a atriz e professora conta que não passou ilesa de preconceitos e que muitas vezes o preconceito vinha por parte de grupos que também sofriam. “É aquela coisa do oprimido virar opressor…”, comentou Danny.

Ela também falou do peso de ser a primeira em muitas coisas, como é ótimo ser símbolo de algo que represente todo um grupo, mas ainda tem seu lado negativo. Em 2008 ingressou os estudos em Letras na Universidade Federal de Paraíba.
“E eu fui ouvindo os discursos, a colocação, ‘deve ser muito difícil para você Danny’. Por que que é difícil? Aí eu fui analisar o ‘por que é difícil’, eu tive que me analisar do ponto de vista externo. Preta, pobre e trans num ambiente que não era comum ter outras. Para essa galera era mais aceitável que eu estivesse em uma esquina me prostituindo do que na universidade”.

Segundo o site de notícias G1 em uma determinação publicada em janeiro é permitido o começo do tratamento hormonal para transição a partir dos 16 anos. Mas foi em 2006 que Danny começou com a transição, após um amigo perceber sua tristeza em ter que viver mentindo.
“Até que um dia eu encontrei alguém que disse ‘mas isso não é você, essa pessoa que está aí não é você, você tem que se dar uma chance de ser de fato quem você é e ser feliz’. Foi quando eu comecei minha terapia hormonal e disse: agora não tem volta.Foi assustador, principalmente os primeiros meses, porque o seu corpo reage, você começa a mexer no funcionamento de uma coisa”, conta ela sobre o processo do tratamento hormonal.

Sobre sua carreira, além de atuar em outros projetos como Hosana nas Alturas (2017) de Eduardo Varandas; Sol,Alegra(2018) de Tavinho Teixeira e O Seu Amor de Volta-Mesmo que Ele não Queira(2019) de Betrand Lira, o filme que levou seu nome para um dos maiores e mais importantes festivais do cinema foi Bacurau(2019) onde interpretou Darlene, filme concorreu ao Cannes e venceu disputa entre o longa-metragem dirigido por Kléber Mendonça Filho.

“Tava do lado do outro oceano, um lugar que eu só frequentava nos meus sonhos e quando o sonho permitia atravessar a alfandega e eu disse gente… é um fenômeno, e eu tô fazendo parte disso. E foi quando eu me dei conta do que eu estava representando naquele momento, de ser uma professora trans, negra, nordestina, paraibana, brasileira. Quando essa ficha caiu eu disse ‘caraca, eu tô num lugar onde as pessoas estão me olhando e enxergando milhares e milhares de pessoas que não estão aqui mas estão sendo representadas por mim’. Aí isso me assustou. Eu estava onde muitas meninas trans até tenham sonhado estar mas não tiveram a mesma chance… Ser a primeira é motivo de orgulho e satisfação pra mim, mas também tristeza… por que só eu? Por que só agora? Mas sabe por quê? Porque faltam oportunidades”.

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