Simone de Beauvoir, Judith Butler, Leonardo da Vinci e Sócrates
Simone de Beauvoir, Judith Butler, Leonardo da Vinci e Sócrates (Foto: reprodução)

A homossexualidade existe desde que o ser humano existe. Dito isso, vários pensadores que redesenharam o mundo e influenciaram a humanidade de variadas formas, tinham um comportamento sexual destoante ao que era vigente e tido como normativo.

Alguns confessos, outros tiveram sua sexualidade descoberta através de pesquisas imersivas e fontes históricas. O fato incontestável é que, a sexualidade não se desassocia da condição humana, e se manifesta das mais variadas formas. Nessa direção, interferir na sexualidade alheia é negar a pulsão sexual do outro e, consequentemente, ir na contramão aos princípios fundamentais como alteridade e dignidade.

Dito isso, do ponto de vista histórico, podemos catalogar várias figuras exímias e emblemáticas que também compõem o grupo de fabulosos LGBTs na história. São literatos, filósofos, pesquisadores; dentre outros.


Simone de Beauvoir

Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir, nascida em Paris, 9 de janeiro de 1908 foi uma filósofa e pensadora marcada pelo estudo profundo do existencialismo.

Esposa do também existencialista Jean Paul Sartre, foi uma controversa pensadora que suscitou reflexões inquietantes e confrontantes que despertam a ira e paixão até os dias atuais.

Ávida defensora da liberdade, Simone entendia o homem e mulher como uma leitura social imposta e tida como inquestionável. Desse modo, surgiu a frase: ”Não se nasce mulher, torna-se”, fragmento do seu livro “O segundo sexo”. 

A filósofa defendia uma liberdade circunstanciada, ou seja, a situação e circunstâncias históricas são determinantes para o destino feminino. Simone, em suas teorias, também correlaciona as relações sociais e o papel da mulher e, sobretudo, enfatiza em suas teses o “mito da maternidade”, ao passo que maternidade seria mais uma expressão de imposição à mulher. Desse modo, acabou logrando-se como uma célebre teórica feminista.

Sobre a expressão de sua sexualidade, existem muitas especulações em relação à Simone e a bissexualidade. Segundo a biógrafa americana, Hazel Rowley, quando Simone morreu, em 1986, suas cartas para Sartre foram publicadas, e nela estavam relatadas descritivamente suas noites com mulheres.

Existem outras fontes que afirmam que a filósofa estava diretamente relacionada com casos de pedofilia. Na verdade, muitas afirmações falam sobre Simone lutar para diminuir a idade de consentimento na França. Assim, supostamente, fazia um rodízio de garotinhas com Sartre.

O motivo supratranscrito é o grande motriz para pessoas demonizarem e tirarem a credibilidade das contribuições da teórica feminista.

Leonardo da Vinci

O livro Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson, faz uma leitura pertinaz sobre as principais obras de Leonardo e, sobretudo, em que contexto ele se encontrava quando trouxe à tona estas obras. O livro também estabelece uma correlação entre arte e ciência. Nesse sentido, Isaacson mostra que a genialidade de Leonardo estava fundamentada em características acessíveis a todos nós, como a curiosidade, uma enorme capacidade de percepção e uma imaginação exacerbadamente fértil que flertava com a fantasia.

O biógrafo Walter também revelou que Leonardo não tinha vergonha de assumir-se gay. Desse modo, o pintor multidisciplinar foi, por duas vezes, denunciado por sodomia, tendo quase sido preso.

Oscar Wilde

Outro artista emblemático também condenado pela homossexualidade foi Oscar Wilde, autor do atemporal, O Retrato de Dorian Gray. Wilde foi um símbolo do esteticismo, sendo o principal porta-voz deste movimento artístico. Em suma, o esteticismo pregava a plenitude da liberdade do artista independentemente de qualquer fator, tendo o belo como a principal busca. Acreditava-se que o belo dava um tom de vanguarda às artes, sendo um brado confrontante ao tradicionalismo vigente na era Vitoriana.

Wilde era dono de uma personalidade irreverente, visionária e fascinante. Apesar de ser considerado um delito, Oscar Wilde nada fazia para suprimir sua homossexualidade.

Em resumo, após explicitar seus desejos, sofreu perseguição pública que acabou desencadeando na prisão do literato. Contudo, foi libertado em 1897. Desse modo, em decorrência de toda a pressão que incidiu sobre ele, acabou produzindo poucas obras de prestígio, mas nunca deixou de defender “o amor que não ousa dizer o nome”, definição sobre a homossexualidade, como a forma mais perfeita de amor.

Sócrates

Quem acha que filosofia começou com Nietzsche ou Karl Marx está absolutamente enganado. Na verdade, para entender o Big Bang de todos os conceitos sobre a sabedoria humana, é fundamental se transportar para Grécia. Nessa viagem dignificante você se encontrará com Sócrates.

Nesse sentido, sendo um dos principais filósofos ocidentais, viveu na Grécia Antiga, onde era normal um homem mais velho manter relações sexuais com homens jovens. O tutor de Platão chegou a declarar que o sexo anal era sua melhor fonte de inspiração e que relações heterossexuais serviam apenas para procriação.

Alan Turing

Alan Turing é conhecido por muitos como pai da computação e da inteligência artificial. Isso porque ele foi um dos criadores do primeiro computador. A invenção de Turing foi decisiva para vencer a 2ª guerra mundial.

Mesmo tendo um grande mérito pelo fim da guerra, anos depois Turing foi altamente perseguido por conta da sua homossexualidade. Ele chegou a ser demitido e condenado a ser castrado quimicamente no ano de 1952, por “atividade homossexual”. Em 2013, a Inglaterra concedeu a ele o  ‘perdão póstumo’.

Judith Butler

Judith Butler (Cleveland, 24 de fevereiro de 1956) é uma filósofa pós-estruturalista, lésbica e estadunidense. Assim, consagrou-se como uma das principais teóricas da questão contemporânea do feminismo, teoria queer, filosofia política e ética.

A teórica forneceu formidáveis contribuições, tendo em vista que suas teorias serviram de aporte para formular e reformular o pensamento crítico ao redor do mundo. Suas obras versam sobre as grandes questões da sexualidade e gênero, suscitando polêmicas explosivas.

Só para aclarar um pouco, para Butler, quando somos crianças começamos a encenar determinado gênero. Assim, no decorrer da vida, continuamos encenando esse gênero, o que nos leva a crer que ele é fixo. Assim, ficamos presos e categorizados neste binarismo: homem e mulher.

António Botto

António Tomás Botto (Concavada, 17 de Agosto de 1897 – Rio de Janeiro, 16 de Março de 1959) poeta, contista e dramaturgo português. A sua obra mais popular, Canções, foi um marco na lírica portuguesa por trazer impetuosidade e algo fora do ordinário, sobretudo sob a ótica dos padrões da época. Na verdade, a obra retratou de modo sutil, mas explícito o amor homossexual. Assim, acabou causando grande escândalo e ultraje entre os meios reacionários.

António Botto ficou conhecido pela literatura de Sodoma e obras Homoeróticas. Foi perseguido e sentia-se, muitas vezes, inadaptável ao mundo e expressava isto melancolicamente. Um fragmento de seu poema ilustra esta tristeza: “Arrancam-me as penas. E eu sofro sem dizer nada:- Sou ave Bem educada”.