Peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu
Peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu (Foto: Reprodução/Facebook)

Protagonista da peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” que causou muita polêmica em 2017 por retratar a imagem sagrada do filho de Deus como uma transexual, Renata Carvalho contou em entrevista ao UOL como encarou os ataques que recebeu por conta da encenação.

“Me vejo como um corpo travesti que não deve circular em vários espaços. O que aconteceu não aconteceu contra a Renata, mas contra minha corporeidade travesti. Por isso que a representatividade é tão importante. A gente precisa humanizar e naturalizar a nossa presença e a nossa identidade”, afirmou.

A atriz atribuiu a ignorância por parte dos cristãos como o principal fator para que a montagem tenha sido recebida com tanta retaliação. “Os cristãos precisam ler a Bíblia. A maioria não leu. Você vê todo mundo com a Bíblia debaixo do braço, na página que o pastor ou cardeal mandaram ler, mas mesmo assim ninguém lê. A imensa maioria só escuta o que o pastor fala. Eu não falo o que eu escuto. Eu falo o que eu pesquiso”, disse.


Diante de tantas censuras sofridas pela arte no ano passado, Renata se uniu a outros personagens que sofreram boicote, como Wagner Schwartz – o homem nu da performance do MAM com uma criança – para criar o espetáculo Domínio Público que propõe uma reflexão aos fatos.

“A de que o que aconteceu é cíclico. Que esse massacre ao espetáculo e as artes é histórico. Que a Igreja também está por trás disso. Estamos em um sistema patriarcal que exclui corpos dissidentes, que estão fora da heteronormatividade, da cisnormatividade. Precisamos falar disso. Se qualquer pessoa física tivesse 10% da história da igreja católica, essa pessoa poderia ser chamada de serial killer.”

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Renata ainda elencou os inúmeros episódios de preconceito que a impediram de conseguir papéis por ser trans. “Já perdi personagem travesti porque eu tinha peito. Já perdi papel em um filme, o que me doeu bastante, para um ator cisgênero porque o produtor-executivo não quis ligar o filme a um corpo travesti. Já perdi papel por não ter alma feminina, por não ter voz agradável, porque minha aparência é muito masculina, porque sou muito magra, muito velha”, lamentou.

Ela também criticou o fato de colocarem atores cisgênero para atuar como trans. “Colocar uma trans é muito mais difícil para eles. É muito fácil engordar a Vera Holtz, envelhecer a Regina Duarte para fazer a Chiquinha Gonzaga, colocar peito no Rodrigo Santoro, botar prótese de mandíbula para aumentar o maxilar da Carolina Ferraz”, criticou.

“Outra coisa: os personagens trans geralmente são cheios de aptidões, mas nós, artistas trans, não temos aptidões suficientes para interpretá-los. Não seríamos capazes de humanizar uma personagem. Então, eles precisam chamar uma pessoa mais “apropriada”, mais “profissional”. Um artista cisgênero. Isso tem que acabar”, protestou.