(Reprodução)
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Não é segredo para ninguém que muito LGBT precisa esconder sua sexualidade, o que é muito difícil, para evitar represálias. Vestir uma máscara social para se encaixar nos ditames de pessoas que, muitas vezes, não nos conhece, tampouco sabem de nossas peculiaridades, inseguranças, paixões entre outras coisas. Em suma, a repressão vem travestida de defesa, às vezes até uma defesa de si mesmo e dos próprios desejos tidos como perversos.

Freud já dizia que as emoções não expressas saem mais tarde da pior forma possível. Nesse sentido, esta máxima deve servir para tudo aquilo que guardamos e não expressamos por medo do outro, isto pode também aludir à sexualidade.

Desse modo, especialistas preceituam o efeito devastador e traumático que isso pode causar no porvir. Claro que ninguém deve ser forçado a nada, mas tratar com naturalidade é o primeiro passo para que o indivíduo não se culpe por algo que não está em seu controle, mas simplesmente faz parte da plenitude do seu ser.


Muitos LGBTs são rechaçados de casa; tornam-se motivo de zombaria no trabalho e nas ruas, lidam com situações conflitantes, religiosas e até homofobia interna: a famosa ‘vergonha de si mesmo’. Um caso notório e recente, foi de um menino de 15 anos que sofria bullying homofóbico na escola em Huntsville, no Alabama e se suicidou, no último dia 19 de abril. A dor psicológica é individual, mas o suicídio é sempre uma dor plural. Assim, o suicídio é, por excelência, um sofrimento que permanece vivo. Dito isso, não dá para tratar esse assunto como brincadeira ou fase, mas sim com o máximo de escrúpulo e seriedade.

Experiências

Nessa direção, para aclarar ainda mais essa questão delicada sobre assumir a própria sexualidade, conversamos com um garoto, cuja identidade será preservada. Ele relatou todo o processo de conturbação, bem como o de autoaceitação que presenciou. Assim, depoimentos encorajadores como esse, pode inspirar muita gente a fazer o mesmo.

X demorou muito tempo para aceitar que era gay e, segundo ele, vários fatores correlacionados foram responsáveis para essa repressão. X revela que, quando assumiu primeiro para si, tudo ficou mais orgânico dentro dele e, posteriormente, contou aos seus pais. Para ele, a família sempre foi uma representação de força e união, que ele jamais pensaria em decepcionar.

“É muito difícil você crescer em um lar evangélico e descobrir que, por alguma razão, não está inserido nesse meio. Eu me sentia fora do eixo, uma peça anormal”, diz.  “Toda vez que ia para igreja era como se eu estivesse ‘servindo a dois senhores’, eu me sentia um pecador, isso pode ser trivial e engraçado para algumas pessoas, mas, para mim, era ser torturado vivo. Eu me sentia um demônio”, conta.

Fator preponderante para se assumir

Quando perguntado sobre um fator crucial que impeliu X a começar a se punir menos e se enxergar de outra forma, ele revelou que teve algumas inspirações no meio do caminho.

“Eu gosto de inspirações, gosto de inspirações perto de mim. Sei que muito gay gosta de Divas do Pop, eu tenho Beyoncé no meu repertório (risos), mas gosto do que está perto. Tinha uma amiga lésbica muito corajosa que foi importante para mim nesse processo. Eu a observava e conversava com ela. Quando pedi conselhos, ela não foi invasiva, mas me indicou livros, filmes e disse a importância da arte para libertar”.

Liberdade

Quando indagado sobre a palavra liberdade e, sobretudo, se hoje se sente livre, X foi enfático. “Eu acho liberdade uma palavra complexa. Ainda tenho resquícios de pensamentos controversos, que são só meus, não os revelo, mas não queria ser diferente do que sou. Isso é o mais importante. Hoje entendo como foi fundamental viver sem amarras”.

O psicólogo Felipe Gonçalves, já mencionou em entrevista como esse processo pode ser doloroso e até levar ao suicídio: “O preconceito contra pessoas LGBTs é algo estrutural em nossa sociedade. A família representa, na maioria das vezes, o primeiro e núcleo de socialização do sujeito. É na família, sejam quais forem os arranjos existentes, que podemos vivenciar experiências de amor, de proteção e cuidado, como também experiências de abandono, desamor e rejeição. A escola também colabora reproduzindo os modelos impostos na sociedade, através da normatividade dos corpos e vivências. A religião também pode contribuir significativamente para a manutenção das crenças de normatividades das identidades de gêneros e/ou orientações afetivo-sexuais. Esses fatores inter-relacionados podem contribuir significativamente desde a ideação suicida ao suicídio”.

Família

Acerca da reação dos pais e como foi esse processo, X disse que se surpreendeu.“Não foi das melhores, mas também não foi a pior coisa do mundo, eu esperava uma gritaria em casa. Minha mãe ficou em silêncio, minha irmã já sabia e meu pai disse que era pecado”.

“Depois as coisas ficaram mais fáceis, acho que o tempo é o grande responsável. Com o tempo eles aceitaram, ou melhor, eles me aceitaram inteiro, como sou. Hoje temos uma relação pacífica. Eu sinto muito pelos filhos que são expulsos, mas me sinto privilegiado por não ter passado nem perto disso”.

X foi perguntado sobre essa ‘obrigatoriedade imposta’ de contar aos pais e familiares. Não seria essencial assumir-se apenas para si mesmo e, consequentemente, viver sua vida como quiser?

“Eu acho que se você não quiser contar tudo bem. Tudo vai depender do que sua família representa para você. Se eles foram muito importantes para sua formação, é natural que você queira que eles participem de sua vida afetiva. Assim, tudo vai depender do que a palavra família simboliza para você. No meu caso, família sempre foi uma base forte, então foi um alívio contar”.

Deus

Posteriormente, já que o entrevistado havia mencionado sobre preceitos religiosos no início, ele foi indagado a respeito.“Eu encaro a religião como uma maneira de estar perto de Deus. Toda vez que estou perto dele eu me sinto mais forte e não sinto esse Deus punitivo que muita gente desenha. Para mim, ele me aceita exatamente como sou, aliás, ele me presenteou com tudo que tenho hoje”.

Por fim, X foi questionado sobre a situação política para LGBTs, estereótipos estruturais e LGBTfobia.“Nós estamos em um governo que enxerga todos os problemas como se fossem simples. Temos uma política insensível com questões LGBTs, minoria e com questões sobre HIV. Mas nós existimos e estamos em todos os cantos. Uma vez uma amiga da minha mãe disse ‘que bom que você tem um ‘gayzinho’ em casa, ele vai te ajudar com as combinações de roupa’. Pois é, é exatamente esse pensamento de senso comum que é a maioria e vota, aí estamos nessa situação agora. Que bom que temos espaços como esse. Espero que as coisas mudem, principalmente agora com leis mais severas.”

“Meu maior aprendizado é que hoje posso ser quem sou e tenho a plena consciência de que não preciso me desculpar por nada sobre minha sexualidade. Eu espero que no futuro muitos se sintam plenos, como hoje estou”.