Leandrinha
Leandrinha DuArt (FOTO: Reprodução/Instagram)

Por André Junior

Fotógrafa, produtora, blogueira, comunicadora e militante nas causas de PCDs e LGBTs, esta é Leandrinha. Nascida com uma condição rara chamada Síndrome de Larsen (síndrome que afeta o desenvolvimento dos ossos), Leandrinha candidatou-se ao cargo de deputada federal nas últimas eleições mas não conquistou votos suficientes para exercer o cargo.

Através das redes sociais, ela posta vídeos, responde a perguntas do público e divulga seu trabalho como fotógrafa e escritora. Além de exercer a função de colunista do Midia Ninja, a ativista faz parte da Associação para PCDs no estado de São Paulo.


Recentemente convidada para discursar na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), Du Art — como também é conhecida — cobrou ainda mais direitos para os corpos deficientes no Brasil e emocionou todos os presentes na assembleia.

Há quanto tempo você atua na militância por direitos LGBTs e das pessoas com deficiência física, como isso se iniciou?

“Eu costumo falar que eu nasci na militância. Nascer um corpo com deficiência e depois me descobrir como um LGBT é ter de lutar diariamente ao sair de casa. Isso é muito louco, sabe. Você não escolhe ser militante ao ter um corpo como o meu. Você naturalmente faz militância, a sua sobrevivência é luta, sua ideia é luta, sua narrativa é uma luta. Eu comecei a escrever em 2013 alguns contos eróticos pruma cidade de apenas 115 mil habitantes, e nesse momento as pessoas já perceberam que o local de um LGBT e deficiente é onde ele quiser! Fora a sexualidade que me empurrou pro mundo e fez os demais me olharem de outra forma.”

Como é que você viu o seu nome ascender no ativismo até chegar, por exemplo, às colunas do Midia Ninja?

“Estar em projetos como o Midia Ninja é o auge para uma jovem de 24 anos como meu (sendo travesti em um corpo torto e deficiente). Chegar no Midia Ninja, um portal tão grandioso sendo uma pessoa deficiente é grandioso demais. Eu trabalho de forma coletiva lá, e ter alguém como eu para eles é um aprendizado diário também. Eu aprendo constantemente e sinto que tenho a capacidade de ensinar também. É uma honra para mim este ofício, quanto mais pessoas deficientes ocuparem locais de trabalho é melhor para a sociedade.”

Recentemente você fez um discurso emocionalmente e extremamente necessário na ALESP sobre a falta de acessibilidade. Como mulher travesti e deficiente física, como você se sentiu na Assembleia?

“Isso chega a ser inacreditável, né. Eu fui convidada para discursar numa audiência e foi muito difícil para mim encontram um banheiro! Dá pra acreditar? Dentro de uma casa pública… Na Alesp tem um banheiro acessível, sim, mas não tem sinalização, não tem placas que indiquem onde fica o sanitário, sabe. A casa não tem uma placa que nos informa ‘essa porta é um banheiro’… Ficar procurando é humilhante! Acessibilidade é só a ponta do iceberg. Quando a gente fala que é direito do ser humano ir e vir é uma falácia muito barata pois não são todos que tem este direito. Pessoas deficientes como eu não tem esse direito adquirido. Se nós não tivermos apoio e suporte, nós não conseguimos ir e voltar de onde quisermos. Mas como uma travesti é muito lindo para mim ver mulheres trans como Erika Hilton e Erica Malunguinho na política. Elas estão ocupando esse espaço e é preciso que todos nós estejamos alinhados. Se nossos corpos unirem-se no discurso e atuação, nós conseguimos ocupar espaços que bem entendermos”.

Dentre as suas reclamações estava a de que no cenário político, a pauta da deficiência está de forma pífia entregue à direita. O que você quis dizer com isso?

“Nós estamos vivendo com um cenário político muito delicado. A gente tem um presidente que não entende as nossas prioridades e nossas bandeiras. É algo louco quando se para pensar. A primeira dama discursou em libras e para muitos isso é alguma forma de reconhecimento. Isso não é nada. A gente quer falar de direitos trabalhistas, nós queremos falar sobre criar famílias, sabe. A primeira dama discursou em libras na posse presidencial e um mês após essa cerimônia, o Conselho da Pessoa com Deficiência fora extinguido. Então eu questionei: ‘Qual é o interesse deles com os deficientes?’. Nosso movimento precisa se politizar muito mais, ainda. Mas a política no Brasil foi feito para que a população não entende sabe e isso torna tudo mais difícil. Mas nossos corpos é política pura. Nossos corpos e ideias são políticas vivas! Ocupar e exigir direitos se faz obrigatório em épocas de governos autoritários”.

Assista na íntegra o vídeo do discurso de Leandrinha DuArt na ALESP.