Jup do Bairro
Jup do Bairro (FOTO: Reprodução / TV Brasil)

Por André Junior

Apresentado pelas artistas cantoras transexuais, Linn da Quebrada e Jup do Bairro, estreia na próxima terça-feira (11), no Canal Brasil, o programa TransMissão. A atração faz parte da Programação Especial do Orgulho LGBTQI+ que acontece durante todo o mês de junho.

Dirigido pela dupla Claudia Priscila e Kiko Goifman, mesmos diretores do filme “Bixa Travesti” (2018) — no qual expõem a rotina das artistas — , o programa tem o objetivo de falar, de forma mais descontraída, sobre questões de gênero, sexo e raça. O primeiro episódio da atração contará com a chef e apresentadora do “MasterChef” da Band, Paola Carosela. Em entrevista exclusiva ao site, Jup fala sobre a estreia do programa. Confira:


Jup, você lançou o seu primeiro e único álbum há 10 anos atrás. Desde então você trabalha com as mesmas faixas?

“Eu tenho duas demos independentes gravadas. Podrinhas que gravei com um microfone do computado do “Show do Milhão”. A base da primeira versão de “Corpo Sem Juízo” é uma produção do multiartista Juan Ló, vulgo HUR. E a de “Sou Gueto” usei de uma base do Death Grips. E são as músicas que escolhi pra manter no SoundCloud pela importância dessas letras, mas durante a minha trajetória eu abandonei muitas composições. Sinto que por conta das minhas transmutações, meu corpo precisou falar sobre outras urgências, outros pensamentos, sou uma outra pessoa. Como vocês.”

A amizade e parceria musical com Linn surgiu de que forma?

“A Linn e eu já nos conhecíamos e sempre me mostrava o que estava compondo e descompondo, começou a musicar e se dedicar à música. No seu primeiro show, eu estava fazendo uma performance no mesmo festival. Ao anunciar a última música eu tirei a roupa e subi no palco pra dançar. Desde aí fui acompanhando e criando uma obra de arte que só a Linn e eu podemos fazer. O que nosso corpos podem fazer juntos.”

Além da música, você se dedica à moda. Você lançará uma linha de roupas em breve, não é isso? O projeto já tem data de estreia?

“Eu tenho projeto que se chama NOPANO. É onde eu esboço minhas criações de roupa e anti-moda pela necessidade de panos que cobrissem o meu corpo com conforto e identificação. Eu amo roupa, amo me vestir. A qualquer momento eu posso lançar uma coleção”.

Você consegue definir a sua arte para nós? O que é que a Jup do Bairro quer transmitir a todos nós?

“Eu sou lutadora de artes marginais. A arte foi uma acessibilidade criada pro meu corpo. Pro corpo de muitas como eu. E ela entra como uma possibilidade de me manter e me sentir viva. Onde podia festejar ou pedir por socorro de uma forma mais canalizada e menos cruel. Por isso o corpo é sempre muito presente na minha fala e vocabulário. Tudo isso é o que o meu corpo pode agora”.

Após um programa com a cartunista Laerte, você é Linn irão estrelar o “Transmissão” no Canal Brasil, de quem veio o convite? O canal lhe procurou ou vocês é quem apresentaram este projeto?

“A ideia da rádio ser o cenário do programa é justamente por conta do filme “Bixa Travesty” dirigido pelo Kiko Goifman e Claudia Priscilla, que inclusive assumem a direção de ‘TransMissão’. Nas primeiras exibições do filme em Berlim, uma pergunta muito comum foi ser aquele programa de rádio realmente existia. E fomos convidadas pelos diretores, que criamos uma grande relação de afeto por trás das câmeras juntamente com o Canal Brasil para conversar. Sem roteiro, sem ponto, peladas. Dispostas a falar, ouvir e criar um diálogo transversal com cada convidado do programa”.

O programa “Transmissão” entrevistou inúmeras personalidades, inclusive o ex prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Qual é o foco do programa? Discutir a transexualidade com os convidados ou a cada episódio aborda um tema?

“Muitas vezes nos colocam em um lugar de falar sobre gênero, sexualidade e negritude, obviedades que nossos corpos carregam. E acredito que isso limita as pluralidade de nossos pensamentos. Qualquer pessoa pode falar sobre política, religião, futebol, psicologia, astrologia. E o mais generoso do programa é isso, o poder se colocar transparente em um diálogo que tu pode falar ‘não sei o que é isso’, ‘não entendi’ e está tudo bem, não sabemos de tudo mas estamos dispostas”.