Preservativos-Foto/Reprodução.
Preservativos-Foto/Reprodução.

Vinicius Lacerda Ribeiro é Médico Cirurgião do Aparelho Digestivo e Assistente do ambulatório de Doenças Infecciosas do Ânus e Reto do Hospital das Clínicas de São Paulo (FMUSP). Além de exercer suas atividades laborais, o médico é colunista da Carta Capital sobre Saúde LGBT e possui um perfil no instagram onde publica vídeos educativos com dicas e informações sobre vivência, sexualidade e saúde pra o público LGBTQI+. Em entrevista ao Observatório G, o doutor Vinícius Lacerda tira dúvidas sobre o uso de PREPs, nos dá dicas sobre a prática do sexo anal e muito mais. Confira:

Doutor, você publica diariamente sobre a importância do uso de preservativos mas ao mesmo tempo informa aos seus seguidores que existe também mais de um método eficaz para combater IST’s. O que são e quais são as profilaxias de pré e pós exposição para utilização?

Hoje em dia sabemos que o preservativo não é o único método de prevenção de IST. Quando falamos de HIV hoje dispomos de diversos outros métodos preventivos que, quando combinados, aumentam bastante a eficácia de proteção contra o vírus. Dentre eles podemos citar a profilaxia pré-exposição(PrEP), que consiste na tomada diária de um comprimido que contém dois medicamentos usados no tratamento de quem tem o vírus para se previnir. É possível também realizar um tratamento após alguma relação desprotegida, também conhecida como profilaxia pós-exposição (PEP) que deve ser iniciada em até 72 horas após o ocorrido. Além desses dois métodos, o uso de lubrificantes, vacinas contra alguns tipo de infecções sexualmente transmissíveis, testagens frequentes e tratamento precoce quando surgirem os sintomas também previnem a transmissão dessas infecções.


Estas dicas são de importância tanto para os parceiros LGBT+ e os heterossexuais, certo?

Todos estão sujeitos a pegar alguma infecção durante o sexo desprotegido, portanto a maioria desses métodos serve tanto para casais hétero quanto homossexuais. A PEP pode ser realizada por qualquer pessoa que teve uma exposição desprotegida. Já a PrEP só está indicada para homens que fazem sexo com homens, transexuais, profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis.

O sexo anal ainda é um tabu em nosso país e muitos da comunidade LGBT possuem também vergonha ou talvez “medo” de falar ou buscar métodos para uma prática saudável. Como coloproctologista, o que é pra você, o sexo anal saudável?

O sexo anal deve ser praticado de forma responsável e segura. Além das prevenções contra IST, é importante lembrar que o ânus é um músculo que precisa estar relaxado para que a relação ocorra de forma satisfatória. Se você está sentindo dor muito intensa é sinal de que tem algo errado. O uso do lubrificante é obrigatório, pois o ânus não produz lubrificação natural como a vagina, de preferência à base de água ou silicone. A lavagem intestinal antes da relação, também conhecida como chuca, deve ser feita de forma correta e consciente, utilizando pouca quantidade de água ou enemas vendidos em farmácia. Caso esteja tendo alguma dificuldade durante a relação, seria interessante a avaliação de algum médico coloproctologista se não há alguma doença do seu ânus, como hemorroidas, fissuras e/ou fístulas, que podem prejudicar a relação anal.

É necessário o uso de lubrificantes e ou anestésicos? (Qual é o “kit” pré e pós anal, Doutor Vinicius)?

Lubrificante à base de água ou silicone é obrigatório. O uso do preservativo peniano também (não está indicado o uso de preservativo vaginal no ânus). Não é recomendado o uso de agentes anestésicos durante a relação anal, pois a dor é um parâmetro de que tem algo errado e o uso dessas substâncias pode mascarar alguma lesão traumática em seu ânus, com consequências bem ruins.

Ainda sobre sexo anal, qual é a forma correta de se realizar a famigerada “chuca”? Este método de fato é necessário para a prática?

Como eu digo, a chuca não é obrigatória. A relação anal ocorre no seu reto basicamente, que são os 15 cm finais do seu intestino grosso. Normalmente quando chegam fezes no reto, você tem a sensibilidade de que está com “vontade de fazer coco”. Muitos conseguem ter uma relação anal sem passar cheque após evacuar e higienizar externamente o ânus. Porém se você se sente mais seguro realizando a chuca antes da relação, utilize poucas quantidades de água, cuidados com os chuveirinhos compartilhados que podem transmitir infecções, não use água quente demais devido ao risco de se queimar internamente pois o intestino não tem sensibilidade para o calor e, se possível, utilize enemas vendidos em farmácias para realizar essa higiene.

O sexo anal pode ser realizado com frequência?

Pode sim, desde que atente ao cuidados citados anteriormente.

Cada vez mais se fala nos PREPs (combinação de medicamentos que bloqueia alguns “caminhos” que o HIV usa para infectar seu organismo). O que é mito e o que é verdade sobre estas pílulas?

Verdade: é o método mais seguro de prevenção do HIV atualmente, distribuído gratuitamente pelo SUS, possui baixas taxas de efeitos colaterais. Mitos: protege contra outras IST, possui muitos efeitos colaterais para o organismo, medicamento caro e difícil de encontrar, induz resistência ao vírus do hiv.

O Prep nos deixa seguro apenas contra o HIV ou demais doenças?

Apenas contra o HIV.

Existe hoje algum medicamento que exclua a necessidade do uso de preservativo?

Não existe nenhum medicamento que tomado isoladamente previna todas as IST, portanto nenhum deles substitui a necessidade do uso da camisinha.

De que forma o atual governo federal fala sobre as IST’s e a inclusão da comunidade LGBT em campanhas de combate?

As últimas campanhas do governo federal foram pautadas no medo e na ojeriza de quem tem alguma IST. Além do mais o foco foi apenas no uso do preservativo, ignorando as outras formas de prevenção combinadas. É um retrocesso, estão repetindo os mesmos erros das campanhas veiculadas nas décadas de 80 e 90 contra HIV. As campanhas devem esclarecer, informar todos os métodos preventivos disponíveis e acolher aqueles que têm algum sintoma de IST, para tratar e impedir a cadeia de transmissão.

É possível fazer uma análise do quanto somos alfabetizados sobre sexualidade e o que ainda nos é necessário para evoluir neste quesito?

Acredito que sexualidade ainda é um tema pouco discutido em nossa sociedade. Essa conversa deve começar em casa e nas escolas. A internet é um excelente meio de veiculação das informações, porém deve-se filtrar as fontes das mesmas, para evitar a desinformação. Falar de forma clara, aberta, franca, sem estigmas ou preconceitos é a melhor forma de fazer esse conhecimento chegar a todos, com uma linguagem acessível e direta. Os profissionais de saúde, bom como os “influenciadores digitais” devem ter consciência do papel que tem nessa disseminação correta do conhecimento. Fazer sexo é muito bom e falar sobre sexo deveria ser algo corriqueiro no nosso dia-a-dia.