Drag me as a Queen
Drag me as a Queen (Divulgação)

Sensibilidade, fino trato com uma língua afiada, fervo, montação e babado certo são os ingredientes de um dos maiores sucessos da TV paga no Brasil. Drag as Me a Queen já está em processo de produção da sua terceira e quarta temporadas com Ikaro Kadoshi, Rita Von Hunty e Penelopy Jean à frente da atração que transforma mulheres em divas e que já é sucesso na Holanda e na América Latina. No dia 25/12 a partir das 20h os fãs poderão rever episódios da última temporada.

Com histórias de mulheres batalhadoras, mas que por algum motivo perdem a autoestima, o prazer de viver em primeiro lugar para elas, o programa apresenta com muita sensibilidade como essas guerreiras podem retomar o brilho nos olhos contando com o apoio das apresentadoras que certamente já passaram por algum momento de desilusão e preconceito.

Ao Observatório G, Amadeu Alban, diretor da Moviola, produtora responsável pelo reality, exalta a importância do programa, que gera mais de 100 empregos direta e indiretamente, incluindo gays, lésbicas e transexuais, mas lamenta que Drag me as a Queen não esteja na TV aberta por conta da homofobia. O profissional com mais de vinte anos de carreira conta detalhes do programa do canal E! que nas próximas edições contará com celebridades.


Confira!

Como surgiu a ideia do programa?

Por conta de um curta rodado na Bahia, em 2013, Jessie, que retrata o processo de transformação de uma atriz num processo de drag queen contando com a ajuda de outras drags. Se foi transformador pra ela que é atriz, imagina para mulheres comuns que não trabalham com arte?

Como chegaram as apresentadoras?

Drags do Brasil inteiro puderam enviar seus vídeos com perguntas específicas. De 150 selecionamos 17 pra teste com câmera. Junto com o Canal E! chegamos ao trio. Elas precisam ser psicólogas, além de multitalentosas com uma cabeça antenada com a diversidade.

Como é a feita a seleção das convidadas?

Fizemos uma seleção de elenco com 50 mulheres, 13 entraram para a primeira temporada. Na segunda, 200 inscrições. Tínhamos um critério que não era ter histórias de coitadinhas. É uma transformação que ela, mulher, vivencia quase que terapeuticamente, libertando essa diva que já existe dentro dela. Nessa nova temporada teremos celebridades.

Qual participante mais mexeu com as estruturas (emoção) do programa (um case)?

Cada pessoa da equipe tem o seu favorito. Na primeira temporada foi a Carol Jardim. Ela se entregou muito, abordamos um tema dentro da aceitação, ela estava num processo de transição do cabelo do alisado para crespo, ela cortou o cabelo no programa, foi muito bonito. Na segunda temporada foi a Bruna Maila, ela quis participar do programa em homenagem ao filho, menor de idade, que é gay. A história dela foi um tributo à diversidade, foi muito bonito como ela contou essa história.

O programa traz como mensagem a união entre as mulheres. Como chegaram a esse conceito? Elas se expõem, reatam dramas, conquistas, talvez as mesmas situações que as apresentadoras também tenham enfrentado. Isso ajuda na hora da empatia? Meninas que são oprimidas por suas condições (sexualidade, gênero, violência )?

A [mensagem] está acima da união entre as mulheres, o programa é um mergulho na essência do universo feminino. É um sonho que em algum momento não precisaremos trabalhar com distinção de gênero, que só mulheres poderão se transformar no programa. O que está em jogo é o autoconhecimento, se permitir ser quem você é. Isso está na essência da arte drag, as apresentadoras sempre viveram a negação, é um grito de liberdade, ainda vivemos em uma sociedade em que as mulheres não podem ser quem elas querem ser. A empatia foi um processo de seleção das apresentadoras, da equipe técnica, as participantes estão ali se expondo.

Ainda que o programa tenha seus momentos dramáticos, a energia das apresentadoras faz com que fique com um toque diferente. Como o formato foi pensado para não ser assistencialista?

Não acreditamos no assistencialismo, é a forma mais fácil de impactar, o mais difícil é ser empático, ouvir aquela pessoa. A ideia do formato é ser criterioso e assim respeitar essa lógica. Não cortamos o cabelo, não transformamos elas e dissemos é assim que você vai ser. Não, nós perguntamos como ela quer ser… E aí vem as mecânicas da arte drag, a música, o nome, a performance.

Qual foi a sua reação e a de toda a equipe ao saber que o programa foi exportado para a Holanda, país dos realities?

O programa é tão bem sucedido que a NBC passou a ser a distribuidora do formato. E o primeiro cliente foi um canal público holandês com três drags e mulheres holandesas como participantes. Foi muito bacana, ficamos muito felizes. Prêmios, feiras internacionais de TV são muito importantes, nos mostram que estamos no caminho certo.

Independente de gênero, sexualidade, temos ali uma peça que dialoga com o mercado mundo afora, principalmente nesses tempos em que se questionam valores, o que deve ser produzido ou não. Se a tivesse vivido um período de filtros em 2016, quando a gente começou o projeto, provavelmente uma experiência tão bem sucedida como Drags não existiria. Estamos falando de mulheres, seres humanos, não estamos questionando valores da família, ao contrário.

Num país tão homofóbico, estar à frente de um programa com drags, com sucesso de público e critica te surpreendeu?

Me surpreende o formato ser reconhecido nacionalmente e internacionalmente e ainda a gente tenha dificuldades em vender para canais abertos e para patrocinadores com medo da homofobia institucionalizada. Internamente, não temos o reconhecimento que temos lá fora, aqui se apegam ao valor do gênero, da diversidade.