Jéssica Barros (Divulgação)
Jéssica Barros (Divulgação)

Jessica Barros nasceu no Ceará e serviu às forças armadas no Brasil enquanto jovem no país. Logo após servir à Marinha, Jessica fez sua tão sonhada cirurgia de designação de sexo. Em 2006 a mesma ganhou o concurso de Miss Transexual e passou a viajar ao redor do mundo graças ao título. Hoje, morando na Inglaterra lançará uma biografia sobre a sua história, contando da infância enquanto menino, experiências de vida, quando tornou-se mulher e viagens.

A obra será lançada em inglês até o final do ano. A modelo volta ao Brasil em 22 de novembro como convidada especial do Miss Transex 2019, onde fará parte do juri. Jessica falou conosco do Observatório G e deu dicas de como será o seu livro. Confira:

Jessica, você sempre se entendeu como mulher ou houve um momento exato em que percebeu que o sexo que lhe fora designado na maternidade não era de fato o seu?


Eu sempre tive esse feeling dentro de mim de que seria uma criança especial, sentia ser diferente dos meus amigos da escola, meus gostos, não gostava de brinquedos masculinos, só queria saber de brinquedos femininos. Eu cresci com pensamento diferente dos meus amigos, eu sabia que a minha feminilidade era mais forte dentro de mim do que tudo, até minha família já tinha percebido desde a infância. Parece que a minha mente foi percebendo isso para me preparar para várias mudanças que eu passaria pelo futuro.

Como foi a sua infância num corpo masculino?

Era como se eu estivesse juntando todos os dias um quebra cabeça na minha vida até chegar a um resultado final, até chegar ao que eu sou hoje.

Você mantém contato com alguém da época de militar?

Não tenho mais nenhum contato com militar das forças armadas já faz um tempo, e depois que eu saí de lá, eu decidi apagar um pouco dessa história da minha vida. Só entrei nas Forças Armadas para realizar um sonho da minha mãe. Ela sempre me vestia de marinheiro quando eu era criança, no desfile da escola também. Ela faleceu quando eu tinha 14 anos e senti que devia entrar nas Forças Armadas para realizar esse sonho dela.

Como foi a sua vivência dentro da Marinha do Brasil? Você sofria preconceitos devido à homossexualidade?

Uma experiencia que eu levo para o resto da minha vida, aprendi a ser eu mesma e ter opinião própria, minha melhor escola da vida foi quando eu servi às forças armadas, eu não sofria preconceito porque eu não tinha me assumido ainda, eu tinha medo e não queria que aquele fosse o momento, porque ali eu queria realizar o sonho da minha mãe, apenas isso, então eu esperei passar essa época para me assumir.

Você enquanto possuía um corpo masculino já tinha relacionamento com homens? Já se envolveu com alguém da Marinha?

Quando eu ainda era homenzinho me relacionei sim, mas eu não gostava pois eu me identifico com homens mais masculino, gosto de me sentir protegida e eu via que a química não batia por esse motivo e lembro de um cara que me relacionei na época, eu falei que estava em processo de transição e ele falava para mim que isso não importava, que ela gostava da minha pessoa do jeito que eu sou, e nunca esqueci disso.

Hoje no Brasil existem militares transsexuais?

Para falar a verdade eu nunca ouvi falar em militares transexuais no Brasil, mas já ouvi falar sim em militares homossexuais, isso tem muita diferença, mas pelo o que eu vivi na época acho a o Brasil nunca liberaria uma militar transexual. Não sei hoje em dia, pois as coisas mudaram muito, só sei de uma coisa: esse foi um dos motivos que larguei a vida militar, pois queria me transformar no que eu sou hoje em dia e se eu tivesse seguido carreira não seria a pessoa realizada e feliz que sou hoje em dia, seria sim militar exemplar com patentes , mas por dentro cheia de sonhos.

Qual é a sua profissão nos dias atuais, Jessica?

Eu era empresária, tinha aberto um academia de musculação em Fortaleza, mas resolvi vender por conta da distância entre mim e o trabalho, pois já estava morando em Londres, foi difícil conciliar os negócios na Euro. Hoje vivo de renda dos meus imóveis alugados, sou maquiadora.

De quem veio a ideia de criar ima biografia? Quem está escrevendo-a?

A biografia é uma realização de um sonho que eu tive em toda a minha vida, para poder mostrar para as pessoas a força de vontade que a gente tem de lutar pelos nossos objetivos e sonhos, então a cada passou da minha vida e tudo o que eu passava eu pensava naquilo com uma batalha pra mim, e eu achava bonito essa história. Até que um dia eu me encontrei com um amigo em Londres e contei minha história pra ele e o mesmo me deu a ideia de escrever, mas eu não sabia por onde começar. Ele me ajuda a escrever e publicar o livro.

Você ja pode nos contar alguma curiosidade que estará no seu livro?

Vou contar sobre a minha infância humilde, foram muitos percalços, vou falar sobre minha tradição, passagem pelas Forças Armadas, experiência de vida, tudo.

Há quanto tempo vive em Londres?

Cheguei em Londres em 2006 logo depois que eu ganhei o concurso do Miss Brasil, porque ganhei uma passagem para Londres e até cheguei aqui como turista. Fiquei 6 meses, me apaixonei pelo país e decidi morar aqui. Estou em Londres desde 2006, gosto muito, pois ninguém olha sua roupa, não te julgam como no Brasil.

Você possui a vontade de retornar ao Brasil? Nos dias atuais a população LGBT vem enfrentando – novamente – inúmeros retrocessos. Você é atenta às causas e lutas da comunidade a qual pertence?

Em relação à população LGBT eu não sou aquela pessoa 100% ativista, mas estou sempre me informando sempre por dentro das causas e claro quando posso também dou minha opinião e também luto pela nossa igualdade social