Deputado Jean Wyllys
Ex-deputado Jean Wyllys (Foto: divulgação)

Por André Júnior

O ex deputado federal do PSOL, Jean Wyllys, fora obrigado a se autoexilar do Brasil após inúmeras ameaças de morte que preocupavam a sua integridade física e de sua família. Reeleito com mais de 40 mil votos para assumir o seu quarto mandato, o político abriu mão de sua cadeira na Câmara dos Deputados em Brasília. Em entrevista ao Observatório G, Wyllys afirma que o atual ministro da justiça, Sérgio Moro, mente ao dizer que investigaram e ofereceram proteção à sua vida no Brasil e muito mais. Confira:


– Jean, a decisão de não assumir o seu mandato foi pessoal ou fora decidida em conjunto?

A decisão de não assumir o mandato foi pessoal. Eu não comuniquei o partido antes, falei apenas para a minha família nuclear e a minha assessora e amiga, Noêmia. Eu não avisei para mais ninguém porque isso implicava na minha segurança e na segurança de minha família, eu agi estrategicamente para fugir das ameaças de morte que sofria constantemente. Eu concretizei este meu pensamento de deixar o Brasil após o Conselho de Direitos Humanos ter sido completamente ignorado pelo Estado. E antes disso, todas as denúncias quais eu havia feito à Policia Federal não tiveram êxito –  eu percebi que não havia o interesse institucional de proteger a minha vida – isso tudo se materializa e é acrescido com todos os insultos que eu sofri, xingamentos e ofensas nas comissões ou no plenário, inclusive por Bolsonaro e outros parlamentares na prática do meu ofício como deputado. Tudo o que eu ouvi nunca foi levado a sério, nunca gerou revolta na sociedade e não fora exposta pela mídia; pela imprensa brasileira. Era natural atingir um gay, ofender e atacar um homem homossexual é rotineiro na vida da maiorias, por mais que seja um político eleito democraticamente. Ofender um gay é permitido na cabeça de muitos, tudo isso me levou a tomar a decisão de não retornar ao Brasil e sobretudo com a vitória do atual presidente. Eu alertei a todos e tentei avisar do perigo que Bolsonaro representa, eu falei para as pessoas que conhecia e conversava duranta o período eleitoral a respeito do homem que Bolsonaro é, e de tudo o que aconteceria e está acontecendo, mas ninguém me ouvia. As barbáries e pronunciamentos que estão assustando muito hoje, fora alertado por mim mas não tive êxito. Mais do que ninguém eu sei quem é Jair Bolsonaro. Eu brinco que sofro com a “Síndrome de Cassandra”: prever o futuro mas não conseguir convencer ninguém.


– Hoje, longe da câmara, o que tornou-se o seu ofício?

Agora, longe da câmara, o meu ofício é intelectual. Eu trabalho escrevendo e dou conferências. Eu estou num processo de doutorado em Berlim e darei continuidade aos meus estudos. Hoje o meu ofício é inteiramente intelectual, eu faço política desta maneira. Eu estou fazendo uma política literária, do jeito que eu sei fazer. É possível fazer política fora da institucionalidade e do parlamento. Eu continuo fazendo política, eu já fazia política antes mesmo de assumir o meu primeiro mandato. Eu comecei no movimento pastoral e posteriormente no Movimento Gay dos anos 90 – anos terríveis para a comunidade LGBT – o homem gay principalmente, nós eramos a curva ascendente da AIDS e nós precisávamos fazer algo, não era viável ficar calado e com os braços cruzado. Portanto, eu continuo fazendo política, sim!

– Você se considera um ex político? 

Eu não me considero um ex político, eu sou um ex deputado. A minha atuação política continua de forma diferenciada. A melhor  forma de fazer política é a organização, é preciso organizar-se em todos os níveis.

– Você pensa em voltar ao Brasil um dia para concorrer a eleições novamente?

Eu não gosto de fazer afirmações sobre o futuro, assim, como se eu tivesse tanta certeza. Eu não sei quanto tempo irá durar esta noite no Brasil, e eu não sei quanto tempo durará o meu autoexílio. A princípio eu não tenho vontade de voltar a participar de eleições no meu país, mesmo que muitos mandem mensagens lamentando pela minha saída e digam torcer pelo meu retorno.

– O que os cidadãos que não concordam com o atual governo podem fazer democraticamente em forma de protesto?

É preciso haver união em condomínios, bairros e grupos afins. A comunidade LGBT é ampla e muito diversa, mas precisa encontrar um ponto comum que sirva à organização. A forma de fazer política através das artes é incrível; é preciso que os grupos artísticos se organizem neste quesito também, e é assim que nós formaremos uma sociedade civil forte e capaz de desobedecer este governo .O atual governo do Brasil não tem legitimidade, um governo não ganha legitimidade apenas com a vitória nas urnas.  A legitimidade de um governo vem através da capacidade de gerir e garantir o dissenso; garantir a expressão da oposição e o governo Bolsonaro não é capaz de fazer isso. Pelo contrário, a gestão Bolsonaro vem convertendo qualquer forma de oposição em inimigos e vem gerando violências concretas de várias formas. A execução de um músico com 80 tiros no Rio de Janeiro, há o caso recente também de uma mulher que fora agredida na Avenida Paulista nesta semana por três covardes seguidores de Jair Bolsonaro. Ela foi atacada por pensar diferentemente a eles! As pessoas estão se sentindo seguras e autorizadas a agredir quem pensa ou possui ideias diferentes. Diante destes absurdos, só nos resta desobedecer a este governo até que ele caia!

Eu tenho tomado medidas jurídicas referente a todas as ameças que sofri. As últimas ameaças que sofri (mesmo depois de me autoexilar e não assumir o meu mandato), foram levadas diretamente ao Ministro da Justiça – Sergio Moro – e ele mente ao dizer que o Estado havia tomado ações contra quem me ameaça. Ninguém foi investigado e nada fizeram. Ele mente e sabe que mente! Não houveram conexões, não buscaram ligar os pontos entre quem me difama e quem me ameaça. E há concretamente uma ligação entre as redes de difamação e as ameaças. As ameças possuem inúmeras fontes, elas veem de grupos masculinistas que se organizam em forum na deep web. Há muitos grupos de fundamentalistas cristãos mas elas veem também de grupos criminosos que trabalham como milicias e a polícia não investigou de forma séria.

– Quais medidas judiciais você tomou e está tomando a respeito das ameaças de morte que sofreu?

Eu tenho tomado medidas jurídicas referente a todas as ameças que sofri. As últimas ameaças que sofri (mesmo depois de me autoexilar e não assumir o meu mandato), foram levadas diretamente ao Ministro da Justiça – Sergio Moro – e ele mente ao dizer que o Estado havia tomado ações contra quem me ameaça. Ninguém foi investigado e nada fizeram. Ele mente e sabe que mente! Não houveram conexões, não buscaram ligar os pontos entre quem me difama e quem me ameaça. E há concretamente uma ligação entre as redes de difamação e as ameaças. As ameças possuem inúmeras fontes, elas veem de grupos masculinistas que se organizam em forum na deep web. Há muitos grupos de fundamentalistas cristãos mas elas veem também de grupos criminosos que trabalham como milicias e a polícia não investigou de forma séria.

– Eu ouso em dizer que era preciso um perfil como o do atual presidente do Brasil, para que a comunidade LGBT despertasse de uma vez por todas à respeito do que de fato importa. Você concorda? Quais são suas análises do atual governo federal?

Eu concordo que é preciso um governo claramente homofóbico como o de Bolsonaro para que a comunidade LGBT se dê conta de todo o perigo que paira sobre ela. A ameça contra a comunidade gay é uma ameaça histórica. A sociedade funciona em um sistema de Sístole e Diástole, ela se abre e se fecha acerca da comunidade LGNT. Em governos progressistas como o de Lula e o de FHC também, mas precisamente nos governos Lula e Dilma (onde houveram inúmeros programas e politicas sociais), quando se há políticas públicas que discutem o assunto e a defesa e a estima social aos LGBT do país, o povo torna-se aberto ao diálogo. E quando há ditaduras abertas ou fechadas como a que vivemos agora, este julgamento aumenta. A comunidade precisa estar atenta, mas o que mais me assusta é saber que existem gays que votaram neste sujeito abertamente ignorante e homofóbico.

– Qual é o seu sonho de Brasil, Jean?

O meu sonho de Brasil é o sonho do Brasil que o governo Lula estava construindo. Nós eramos um país em pleno desenvolvimento, um país com quase pleno emprego, houvera um governo que pensava em acabar com a fome e a miséria, que preocupava-se em distribuir dinheiro aos mais pobres. Muitas famílias no Norte e no sul do Pará deixaram de vender suas filhas a redes de exploração sexual gracas as políticas pensadas por Lula que fomentaram renda à estas famílias. O governo Lula garantiu dignidade aos mais pobres, pensou num programa de educação específica a comunidades indígenas. O Brasil do meu sonho é um país que dê continuidade a isso e superem os limites do Lulo-petismo. Um país que não negligencie isso, mas sim dê continuidade.